Sunday, July 17, 2011

E agora, galera? Como é que vai ser?

The Resurrection - Study for a figure - The Rapture
Olá Pessoal
Voltando à reação das pessoas em 2008, quando comecei a divulgar a minha história de vida, um comentário em especial, apesar de já esperado, aponta qual será o ponto central da minha guerra espiritual, ou melhor, qual será o campo de batalha da chamada "guerra de MABUS".
Um falso amigo daquele ano levou os DVDs do meu filme doc "Ícaro, Contemplação e Sonho" para mostrar a quem ele reconhecia como "intelectual". O cara era um desses intelectualóides boçais de universidade que disse que não viu nada demais na arte apresentada no filme. Para ele, "os caras (artistas profissionais) fazem todos aqueles desenhos que eu faço no filme e, por isso, é absurdo eu me julgar ser o próprio Michelangelo baseado na minha arte de desenhar". Além do desdém imediato pelo meu desenho, que há décadas observo neste tipo de gente, a reação do sujeito é emblemática porque revela dois fundamentos básicos da estupidez: rejeição automática à minha história e uma completa ignorância sobre a estética da figura humana expressa pelo meu desenho.
Eu sei que ninguém considera a minha experiência da lembrança da morte da Vittoria Colonna, mas foi isso o que me revelou ser o próprio Michelangelo e há uma lógica emocional por trás desta situação que prova a sua realidade. Por outro lado, quando vivi essa experiência em 1983, o meu desenho era tosco, estranho (apesar de já refletir a minha arte da vida italiana) e tudo o que fiz nos anos seguintes foi deixar o desenho que fazia por intuição crescer para saber até que ponto a coisa de "ser Michelangelo" iria continuar se expressando. A verificação da identidade na arte foi feita na escultura e não no desenho. Além disso, no meu íntimo, não há nenhuma conexão entre a minha autopercepção como o próprio Michelangelo e qualquer expressão artística. Bastam estes esclarecimentos para avaliarmos o tamanho da truculência e ignorância do intelectualóide boçal.
Entretanto, no início dos anos 1990, quando comecei a analisar a qualidade e verificar a origem do que eu havia produzido em desenho, uma pergunta fundamental saltou aos meus olhos: seria possível o aprendizado e treino de tudo o que o movimento automático de minha mão expressa quando desenha? Vejam bem que, nesta pergunta, não estou questionando o fato de eu ser o próprio Michelangelo (isso está ligado à lembrança da Vittoria Colonna e envolve a minha vida desde criança), nem estou questionando o meu autorreconhecimento através arte, que foi atingido na escultura. Com esta pergunta, queria apenas elucidar o ponto onde os boçais de plantão encontram coragem de momento para me atacar.
Enfim, os anos foram passando e esta pergunta sempre se repetia na minha cabeça toda vez em que estava diante de uma situação que a evocava nos ambientes de arte que frequentei. Como não tinha planos de me apresentar como o próprio Michelangelo (o que explicaria o meu conhecimento artístico) jamais respondia às ignorâncias que me atravessam os ouvidos. No final da década de 1990, a internet estava bem mais desenvolvida e a minha busca por um artista vivo que desenhasse por intuição a figura humana com as mesmas informações estéticas que eu ganharam dimensão planetária. Antes, eu vivia em bancas de jornais e bibliotecas buscando a singularidade do meu traço em trabalhos de arte que, por ventura, fossem publicados.
Mesmo quando, na década de 2000, comecei a ganhar dinheiro em carnaval e tentava me modificar artisticamente para esquecer a minha identidade como Michelangelo, nunca deixei de prestar atenção nos desenhos de figura humana que passavam diante mim. Sempre olhava com atenção e avaliava o nível de conhecimento anatômico e o tipo de representação de espaço criado pelo traço: a análise destas duas características de um desenho são suficientes para entender como a figura humana foi elaborada. E eu não encontrava nada, absolutamente nada, que sequer chegasse próximo da reconstrução metafórica expressa em meus nus, que mistura estatuária greco-romana e domínio completo de anatomia, nem das composições repletas de narrativas clássicas e teológicas típicas da minha vida italiana.
Bem, infelizmente, não pude seguir com os meus planos de enterrar a minha identidade Michelangelo. Queria voltar a ser o surfista que sempre fui mas, em 2008, o meu mundo já estava virado do avesso. A defesa contra a fúria do Além foi explicar porque sou Michelangelo para todos. Todavia, nesta mudança de postura na vida, a única razão que me fazia ficar calado diante das ignorâncias dos intelectualóides boçais desapareceu! O jogo de aparências que me mantinha sob o controle do senso comum e permitia que idiotas soltassem bravatas ao gosto da moda sem serem incomodados acabou! Pior: o ato de declarar ser o próprio Michelangelo me colocou numa situação sem retorno e sempre à espera pelo ataque furioso dos intelectualóides boçais da realidade oficial. Mas não me sinto acuado, pelo contrário, agora estou MUITO à vontade! Turbinado pela destruição da minha juventude, o meu único prazer até o final da vida vai ser a destruição espiritual do mundo dos intelectualóides boçais!
E agora, galera? Como é que vai ser? Como é que vai ser com eu, solto por aí, batendo no peito ao proclamar a identidade Michelangelo aos brados para toda a Humanidade? Alguém tem dúvidas sobre o que vai acontecer com os intelectualóides boçais que aparecerem no meu horizonte?
E agora, galera?? Como é que vai ser??? Alguém vai se habilitar a discutir comigo a questão fundamental sobre o meu desenho? Alguém acredita que seria possível o aprendizado e treino de tudo o que o movimento automático de minha mão expressa quando eu desenho?
Alô, você, intelectualóide boçal! Considere-se satisfeito por discutir desenho comigo, porque escultura não está ao seu alcance!
Muita gente me pergunta por segredos que eu possa estar guardando além da minha óbvia arte. Ora… vão tomar no cu! Agora, galera, quem tiver disposição, ou me enfrenta com exemplos e fazer artístico ou fica calado e engole a própria ignorância, como muitos já estão fazendo (veja o blog http://michelangeloisback.blogspot.com/). Quem quiser pagar para ver (e estou disposto a apostas bem altas), saiba que estou aqui, e por toda internet, ESPERANDO!!!

Friday, July 8, 2011

Aos robôs do senso comum globalizado

Icarus - Geometric Structure
Todas as vezes em que sou convidado a explicar a minha trajetória de vida, num determinado ponto, sempre escuto as mesmas perguntas sobre se eu fazia uso de drogas alucinógenas. Parece impossível ao senso comum da sociedade atual que experiências como as que vivi possam acontecer sem nenhum tipo de alteração química no cérebro. Porém, o que vejo por trás desse tipo de pergunta é um espantoso conservadorismo, cuja vivência não inclui um mínimo de misticismo não classificado por religiões nem racionalizações psicológicas. Mais do que isso: vejo uma uniformização do julgamento via a permanente conexão global das pessoas. A minha estranheza é pela completa ausência de certos tipos de situações e atitudes de 30 anos atrás.
Enquanto escrevia o livro (calma, falta pouco para começar a venda no site), muita reflexão sobre a época em que a história começa, final da década de 1970 e início da década de 1980, me fez saltar aos olhos a imensa diferença entre o mundo daqueles dias e o atual. A minha primeira impressão é que a comunicação entre as pessoas era mais espiritual porque era mais lenta, difícil e cara. A presença das pessoas sempre ocasionava algum impacto na idealização que fazíamos delas. Ou seja, a realidade parecia, no mínimo, mais cheia de surpresas. Devido ao isolamento dos grupos sociais e à desinformação natural de um mundo desconectado, a vida rotineira era mais carregada de mistérios e as transgressões faziam algum jus ao significado da própria palavra.
Lembro-me de chegar na oficina onde as minhas pranchas eram finalizadas em resina poliéster e fibra de vidro e de ficar sabendo da "viagem" movida a LSD e Heroína que amigos faziam por dias. A minha única razão para não participar daquilo era a necessidade de condicionamento físico para a prática do surfe. Ninguém sabia se aquilo fazia bem ou mal. Usar drogas era um verdadeiro salto no escuro. Havia muito discurso sobre a importância de se viver todo tipo de experiência, mas a minha conclusão sobre as pessoas que faziam uso era que estavam loucas para ter alguma sensibilidade, já que tinham tão pouca. Eu vivia acelerado pela adrenalina da prática esportiva e nunca vi nada de interessante ser produzido pelo estado alterado dos amigos da época. Hoje, entendo o vazio existencial de quem fazia uso. Havia alguma inocência, busca e fuga naquela ânsia por sensações diferentes.
Para mim, o veredicto sobre drogas era sempre o desempenho do cara surfando e isso foi determinante para nunca gostar de cigarro ou maconha. Lembro-me de chegar em Itaúna, Saquarema, 1977, num carro forrado de maconha, cuja distribuição garantia o respeito dos locais na hora de frequentar a praia. Só quando me dei conta dessa situação, eu entendi o excesso de simpatia de quem sequer conhecia. Mais do que proteger meus pulmões e a minha capacidade de remada para entrar nas ondas, esse episódio aos 16 anos me mostrou os meus limites sociais. Eu não era um "maconheiro" como os meus amigos e nunca houve respeito deles por essa minha postura. A minha doidera era outra e não me faltava personalidade para ser eu mesmo. Enquanto fumavam, eu ficava no carro, com o som de uma obscura banda australiana chamada AC-DC nas alturas. A consciência de que eu era muito diferente e muito mais transgressor, ou "maluco", do que todos os meus amigos juntos vinha exatamente desses momentos. O tempo mostrou que eu estava absolutamente correto nesta minha auto-avaliação, mas nunca pensei que aqueles amigos fossem se tornar pessoas tão conservadoras. Aquela "doidera", hoje, é apenas costume social. Só isso.
Aliás, nunca entendi por que "seguir a turma" tornaria alguém mais "atirado" em experiências supostamente transgressoras. Sempre desconfio de quem faz uso excessivo da aparência para se colocar para um grupo social. Se naquela época tatuagem e piercing tinham alguma razão poética, hoje, esse tipo de ostentação já foi incorporada e globalizada pela sociedade urbana, se estabelecendo como o mais trivial sinal de continência ao senso comum. Quando vou ao supermercado e vejo aquelas "senhoras-gatinhas" com tatuagens "iradas", é impossível não pensar nos códigos de imagem da sociedade da informação atual. A ânsia por euforia, sensibilidade e personalidade traduzida por alguma equívocada moda de massa dita o senso comum. Não há conteúdo, apenas rituais de socialização. E novamente percebo que o verdadeiro transgressor do senso comum, sob qualquer aspecto (desde experiências alucinógenas e até sexo), sou eu mesmo. Todo mundo que se julgava (e também aqueles que, hoje, se julgam) "super-transgressores da moral e dos bons costumes" está, neste exato momento, me classificando de louco. A loucura deles, ontem e hoje, não passa de uma ostentação vazia, cujo sentido se esgota na imagem social. A minha loucura é movida por uma verdadeira transcendência do real e se expressa todos os dias sem química alguma.
Todas as sociedades condenam as posturas que não respeitam o senso comum. Poucas pessoas sabem o que dizer diante de algo que a sociedade da informação não explicou para elas e, por isso, não há percepção sobre possibilidades que estão além do mundo atual. Já escutei de neo-hippies conselhos sobre o que não revelar dos sonhos que fazem parte da minha história, em frases do tipo:
– Pô, Poggi, não conta isso aí não porque todo mundo vai pensar que você é louco… – e o cara se julga o super experimentado de doideras diversas.
Já soube de uma pessoa "super-descolada-zona-sul" que queria me apresentar como "maluco a ser observado", lá no contexto do trabalho dela. Depois de equivocadamente tentar me enquadrar (para me diminuir, lógico) na visão de mundo do grupo dela, ela desistiu.
Fica aqui a minha admiração por quem não se curva ao senso comum. Eu sei que esse tipo de pessoa ainda existe, mas prefiro não apontá-las, pois me recuso a construir qualquer nova noção de senso comum. A jornada da vida é solitária e só é verdadeira para quem se conhece pelo próprio íntimo, pelo próprio coração, E NÃO VIVE EM FUNÇÃO DA OPINIÃO DE GRUPOS SOCIAIS.
Simplesmente "ser" é muito mais difícil e sutil do que aquilo que o senso comum atual classifica como original.